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Maços de cigarros; agora piores.

30 de maio de 2008

“Maços de cigarro terão imagens mais fortes”. Assim foram anunciadas pela Anvisa e o Ministério da Saúde Adverte, há cinco anos, o teor das imagens que atualmente estampam os maços de cigarro.

Feto em um cinzeiroImagem metafórica do Ministério da Saúde para ilustrar a teoria de que fumar aumenta o risco de infartos

Na última terça-feira, dia 27/05, o ministro Temporão divulgou as novas imagens “oficiais” dos versos dos maços de cigarro, desenvolvidas através de uma parceria entre o Instituto Nacional do Câncer, os Laboratórios de Neurobiologia da UFRJ, e de Neurofisiologia do Comportamento da UFF, o Departamento de Artes e Design da PUC-Rio e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Se as imagens anunciadas em 2003 eram “mais fortes”, as anunciadas nesta semana estão anabolizadas: desde um feto em meio a cinzas, passando por um cadáver até chegar a um “coração cinzeiro”, as imagens são violentas.

Diferentemente das anteriores, as imagens não mais apresentam vítimas reais do tabaco, mas modelos, e não se resumem a fotografias, passando a fotocomposições digitais, metafóricas e hiperbólicas, um soco de hiper-realidade a cada cigarro acendido.

Num e-mail enviado ao Professor Nilton Gamba Jr., do Depto. de Artes e Design da PUC-Rio, afirmando que gostaria de saber mais sobre a pesquisa, perguntei quais os motivos apresentados para a troca das antigas imagens, qual o motivo para que as imagens sejam tão agressivas (o briefing disso deve ser fantástico, ou resumir-se a “MOSTRAR QUE MATA”) e como os designers envolvidos com a construção das imagens se comportaram. Ainda não fui respondido mas assim que o for…

Um dos trabalhos que apresentei no último Ndesign é um livro-objeto-maço-de-cigarros. Ao ser questionado pelos colegas presentes sobre o “papel social do designer” argumentei que tinha consciência dos males causados pelo cigarro (e que é impossível alguém desconhecer os prejuízos trazidos pelo hábito de fumar) mas que, observando esta história a mais tempo, outro ponto havia se tornado mais importante: a liberdade individual.

Ainda que a população brasileira deseje a proibição do fumo em ambientes fechados, entendo como abusivas estas Advertências Sanitárias e todas as proibições de anúncios/públicidade/comercialização (por exemplo, se eu quisesse vender o livro-objeto pela internet, teria que fazê-lo na ilegalidade). Elas não são inconstitucionais pois o cigarro é, de fato, uma ameaça à saúde pública, mas estão cada vez mais agressivas e, ao invés de alertar o consumidor sobre os malefícios do cigarro, faz antipropaganda de um jeito atravessado, enfiado imagens sangüinolentas na goela do consumidor/cidadão em cada uma das embalagens/maços em que o consumidor adquire seus cigarros.

Assusto-me ao ver a figura do fumante transformar-se num ser infra-animal e tantas Câmaras de Vereadores votarem simultaneamente idéias muito parecidas, de proibição de fumo em lugares fechados, bares e boates inclusive. Também parece-me um tanto questionável a autoridade auto-concedida pelas pessoas que não fumam ao se incomodarem com o cigarro alheio e a ausência quase completa da reflexão ao se falar dos limites que cada um deve obedecer em cada uma das etapas do convívio social.

Enfim, não estou escrevendo como um defensor do cigarro, ou criticando o trabalho desenvolvido peos designers: a discussão é menos sobre o objeto e mais sobre a reflexão, o posicionamento e a ação dos designers, que acreditando fazer um bom trabalho podem estar contribuindo para mais uma intromissão desmedida de um Estado-babá no cotidiano de milhões de pessoas.

Enquanto isso colecionemos os maços de cigarro. “Impotência sexual” em forma de ondas de cigarros, nunca mais.

releitura das imagens e textos dos versos dos maços de cigarro

SE A MAR - composição digital, Vicente Pessôa, 2007.

Veja as imagens no flickr: flickr.com/iaku